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A Rainha, Tereza de Benguela - por Cecília Peixoto

Atualizado: Jul 25


As mulheres historicamente sempre foram subjugadas, o processo de luta empreendido por elas reverberou nas conquistas atuais, especialmente em relação às mulheres negras no Brasil, invisibilizadas durante um longo tempo, excluídas do processo histórico. Abordaremos a importância e a capacidade de gestão de Tereza de Benguela, exemplo de liderança e resistência no período da escravidão brasileira.


No nefasto período escravocrata, as mulheres negras foram seres desumanizados, reduzidos a condição de objeto, o que justificou a insubmissão de muitas destas mulheres. Elas protagonizaram espaços de enfrentamento devido a relação de opressão as quais eram vítimas, neste contexto, destacamos Tereza de Benguela, líder negra, “Rainha Tereza”, que no século XVIII viveu a frente do seu tempo.


Tereza de Benguela veio para o Brasil embarcada no Porto de Benguela (Angola), na condição de escravizada, liderou bravamente um quilombo após a morte do seu marido João Piolho. Assumiu a liderança do Quilombo do Quariterê, no Mato Grosso, no Vale do Guaporé, situado em um local de difícil acesso, por questões óbvias. Este quilombo destacou-se no comando exercido por Tereza, ela criou uma estrutura política, econômica e administrativa, transformou o Quariterê em um quilombo economicamente autônomo, fator que incomodou a coroa portuguesa, tanto pela eficiência da gestão, como pelo fato de ser liderado por uma mulher negra.


Tereza fez vanguarda na sua época por criar uma espécie de Parlamento para governar o quilombo, onde havia local específico e dias definidos na semana para reuniões do conselho, as quais Tereza sempre participava. Administrativamente constituiu equipes de trabalho responsáveis por: Pescar, caçar, plantar (feijão, algodão, milho, mandioca, banana, etc.), preparar os alimentos para a comunidade, além da produção de tecidos para as vestes do quilombo, provenientes da plantação do algodão.


Interessante destacar, que todo excedente da produção das plantações e dos tecidos eram comercializados com os brancos, esta negociação frequentemente visava a troca por armas. Os instrumentos de ferro utilizados para castigar os escravos eram roubados,

sobretudo nas Vilas próximas, a seguir, eram transformados através da forja em ferramentas de trabalho para o plantio.


Tereza governou o Quariterê por duas décadas, e sua morte até hoje não foi definida como ocorreu, se foi assassinada pelas autoridades da época ou suicidou-se com ervas ao ser presa. O fato é que a candace Tereza de Benguela, por sua resistência e determinismo quebrou paradigmas, tornou-se fonte de inspiração para as mulheres negras na diáspora contemporânea.


Reconhecidamente, a luta de Tereza contra a opressão foi determinante para a escolha do Dia 25 de Julho como Dia Nacional de Tereza de Benguela, instituído pela Lei 12.987/2014, no governo da Presidente Dilma Rousseff. Nesta data também foi instituído em 1992 o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

O mês de julho, “Julho das Pretas”, traduz extrema relevância por pautar discussões, debates e ações para propor e criar estratégias de combate ao racismo, fortalecer e valorizar a mulher negra brasileira em todos os aspectos.


Portanto, o reconhecimento de Tereza de Benguela como um ícone de inspiração e referencial de posicionamento político, nos impulsiona e mobiliza como mulheres negras, a ressignificar os desafios que nos sãos impostos constantemente nesta sociedade excludente, eivada de vícios preconceituosos em relação a gênero e etnia.


A justa homenagem a Tereza de Benguela precisa ser preservada, nos dias atuais é imprescindível resistir ao retrocesso do sistema opressor, empreendido por um gestor federal que faz apologia à violência, desdenha da mortalidade em período de pandemia, negligencia a cultura, a educação e a preservação do meio meu ambiente, entre outros.


Inspirados na “Rainha Tereza” sigamos firmes na construção de um país onde a meta principal seja equidade social, e, o Estado democrático de Direito seja de fato uma realidade.


“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela. ” Angela Davis


Cecília Peixoto


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