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Sem os seus, sem adeus: as múltiplas dores da população negra com a morte em tempos de Covid-19

Enfrentar os protocolos de distanciamento a um familiar que vai a óbito significa, na maioria das vezes, vê-lo pela última vez ainda quando este adentra o hospital. O alto grau de contágio do Coronavírus cria um espaço vazio, um espaço de ausências para paciente e familiares, agravados pela frequente dificuldade que os hospitais possuem de atualizar as informações do quadro de saúde de seus internos, devido a sobrecarga da demanda. 


Para a população negra brasileira, este panorama se agrava por diversos fatores que não podem ser detalhados neste artigo, mas que podem ser apresentados de maneira sintética: o Brasil é um país estruturalmente racista, patriarcal e, enquanto localizado na periferia do capitalismo, é cada vez mais deteriorado pelo neoliberalismo. Como se não houvesse o bastante, atualmente é gerido por um governo que representa todas essas chagas sociais reunidas, administrando o país na via mais fiel da Necropolítica, matando e deixando morrer, sendo o mais Mbembiano possível na utilização do termo. 


É dentro deste grotesco contexto que a população negra e pobre se encontra e tenta imprimir um esforço sobrecomum no processo de ressignificação de suas dores e perdas, orientada ao confinamento em casa para cuidar de sua própria saúde e pressionada a sair de casa para trabalhar e não morrer de fome, já que proteção social no governo Bolsonaro se assemelha a fantasia. Assim, a população negra brasileira termina sendo a que mais adoece e a que mais morre com a Covid-19, que é, não se enganem, a pandemia que a sociedade brasileira não normalizou, pois o povo negro deste país enfrenta efeitos de pandemia desde 1500. 


Dados da 11ª Nota Técnica do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde – NOIS, da PUC/Rio abordaram as discrepâncias nos dados de mortalidade pela Covid-19 para pretos e pardos em comparação a brancos, e o resultado fala por si só: 01 a cada 03 pessoas negras vai a óbito, enquanto a proporção para pessoas brancas é de 1 a cada 4,4 pessoas. Em todas as análises por faixa etária a população negra é a que mais morre. Atrelados os critérios de raça/cor e classe a disparidade é ainda maior. Como dimensionar o sofrimento de um povo que além de exposto às opressões do racismo e da vulnerabilidade social – estas normalizadas pela sociedade – é ainda o alvo preferencial de uma pandemia viral sem precedentes? Como cobrar ressignificação, elaboração de luto e resiliência após encarar uma jornada de afastamento de seu ente no hospital, de falta de informações sobre seu quadro até surgir a comunicação de seu óbito e de um sepultamento genérico, apressado e sem qualquer contato ou chance para uma despedida? Casos com  violências diversas têm surgido aos montes: troca de corpos no momento do reconhecimento, caixões abandonados em cemitérios, covas coletivas, retirando toda a pessoalidade e intimidade do rito de passagem e da despedida. E como se não bastasse, a falta de testes suficientes para diagnosticar o vírus nos familiares que ficaram, produzindo ainda mais angústias e potencializando a sensação de morte a qualquer momento, sensação esta que nos é infelizmente familiar historicamente falando.


E desta forma, se elabora o luto que se pode, se ressignifica a perda dentro dos limites possíveis – ou não, o que deve ser reconhecido e dado o suporte psicológico e social necessário. A existência do ser negro no Brasil é marcada por tentativas inúmeras de ressignificação, pelo que fizeram e fazem conosco neste país até a atualidade. Permaneçamos unidas e unidos, cuidem de si e de seus entes, fique em casa se possível. E quando não for, se proteja. O cenário é assustador, mas só pela via da coletividade passaremos por mais esta catástrofe.

Não percamos isso de vista. 

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