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ELEIÇÕES E CIDADANIA ALÉM DA REPRESENTATIVIDADE - por Jamile Santana



Foto: Lili Rubim



Quanto mais os dias passam, mais reflito sobre a importância desse entendimento que é apresentado no título no texto. Sem ter como não considerar, inclusive, que estamos em ano eleitoral, mesmo sob todas as condições atípicas possíveis de caos e crise sanitária através da Covid 19, realidades sócio econômicas que se agravam a contextos alarmantes e todo negacionismo científico e teórico nunca antes imaginado, vivemos tempos líquidos, como diria o filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman em sua conhecida obra. De qualquer sorte, mesmo em meio a tantas adversidades não podemos enquanto seres críticos e pensantes (às vezes é até bom) nos desconectar das relevâncias analíticas que o pensar, os estudos e leituras promovem e nos convocam ao mesmo tempo.


É neste segmento que pretendo refletir sobre as eleições e a cidadania, assim como o aspecto da representatividade já explanado em outros momentos, e como atravessam as vivências e escrevivências que me conectam enquanto mulher preta e assistente social. Uma vez que o processo de cidadania é uma constante, precisamos pensá-lo e exercê-lo a cada novo dia, porém em anos eleitorais essa rica palavra e conceito, tende-se a ser demasiadamente usada com uma severa restrição, apenas a usos e práticas do processo de votar; não deixa de estar atravessada a este ato, mas como explanado não se restringe a ele, não é verdade?


Ademais a representatividade neste cenário ao meu ver, parte de um processo essencialmente político e neste contexto por favor não restringir a amplitude do conceito “política” a ações meramente político partidário, certo? É muito além dessa delimitação conceitual. Até porque a política é uma realidade e ação que nos atravessa em vários momentos da vida e do exercício da cidadania, uma vez que a mesma se fundamenta pelos pilares da resolução de conflitos, tomada de decisões e poder.


Sobre este último conceito, o “poder” seria uma “força que permeia as relações sociais desde o início da sociedade humana. O poder expressa-se pelo embate de forças, mas antes disso, ele existe enquanto uma força”. O filósofo e Historiador das “Ideias” Michel Foucault em sua obra Microfísica do Poder (2014) discute sobre a inserção do poder em instituições sociais, e em suas obras, de modo geral, Foucault aborda sobre as correlações de forças e por isso das relações hierárquicas que o próprio exercício do poder invoca.


Assim, nada mais lógico e natural no processo histórico e social que determinadas populações tidas e colocadas como “minorias”, que na verdade são maiorias silenciadas historicamente, como diria o antropólogo brasileiro congolês Kabenguele Munanga ou ainda, maiorias minorizadas como conceitua o jornalista e doutor em ciências sociais Richard Santos, uma vez que pretos, indígenas, mulheres, LGBTQI+, teriam sido colocados neste lugar de “minoria” ainda que numericamente não expresse essa menor quantidade. Justamente porque a história do Brasil escancara que não tivemos a possibilidade de exercer efetivo poder, pois as categorias de opressão, como racismo, sexismo, lgbtqifobia, o patriarcado, entre outros sistemas abusivos, inviabilizaram e por vezes ainda inviabilizam a mudança de realidade. Por esse e por muitos outros motivos que a representatividade aparece neste contexto, como uma possibilidade de transformação e mudança da realidade social constituída por anos e anos.


Porém a representatividade sozinha não tem esse efetivo poder e afirmo isso citando a frase de Silvio Almeida em seu Livro O que é Racismo Estrutural?, (2018) quando ele diz que “a representatividade é sempre institucional e não estrutural, por isso, quando exercidas por pessoas negras, por exemplo, não significa que os negros estejam no poder”. E essa afirmativa se amplia para todas as supracitadas diversidades etnico raciais, de gênero e até mesmo de classe. Desta forma é preciso e urgente seguirmos fomentando e construindo candidaturas e lideranças essencialmente políticas, e também político partidárias, nos mais diversos espaços de poder, com a nossa cara, porém extrapolando esse escopo físico. É fundamental que estes e estas que elegemos como representantes, de fato e verdadeiramente, dialoguem com nossas pautas ideológicas, de posicionamento, entendimento e vivência. Que ecoem as nossas vozes e expressem a corporeidade que temos em nós, enquanto seres múltiplos e diversos que somos. Inclusive, todo esse diálogo me remete a música “Alienação” do Ilê Aiyê que em determinado momento afirma: “A consciência é o objetivo principal/ Eu quero muito mais/ Além de esporte e carnaval, natural. Chega de eleger aqueles que tem/Se o poder é muito bom. Eu quero poder também!”. "Simbora" poderosos e poderosas, essa Bahia e esse mundo é nosso! Avante!



Fonte:

https://plenarinho.leg.br/index.php/2019/11/o-que-e-politica/

https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/poder.htmi

ALMEIDA, Silvio Luiz de. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte (MG): Letramento, 2018.


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