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ENTRE GEORGE FLOYD, LÁ, E SÉRGIO CAMARGO, AQUI, QUEM SOMOS?

Respondendo ao uma questão que inquiria por que os negros brasileiros não se revoltam como os americanos, o jornalista Dodô Azevedo, em um artigo na Folha de São Paulo, respondeu que nós, tal como um caso único, não nos vemos como um povo, pois não fomos e não somos educados para tal, e prossegue, nós fomos programados para sequer nos ver como negros. A razão destas poucas linhas é estabelecer um diálogo entre esta assertiva e o fato de termos à frente da Fundação Cultural Palmares uma pessoa como o senhor Sérgio Camargo.

Inicialmente, quero colocar que concordo plenamente com o que relata Dodô Veloso e vou mais além, tenho a crença de que nós fomos, desde muito cedo, instruídos a acreditar que o fato de uma pessoa ser negra significa algo tão negativo que aprendemos a usar adjetivos, cirurgicamente eufémicos, para nos designar como negros. Somos, digamos...pardos, escurinhos, morenos e uma lista enorme que não vou relatar para não cansar a paciência de quem está lendo estas poucas linhas. Sem falar na aparência dos nossos narizes, lábios e cabelos!

Não conhecemos a nossa história, nem as mulheres e os homens negros que, vencendo as enormes dificuldades de uma sociedade racista, alcançaram relevância, a duras penas, na literatura, na música, no teatro, no cinema, na geografia, na medicina, etc. etc...A religiosidade que os nossos antepassadas trouxeram na África e aqui reelaboraram é totalmente desconhecida de uma significativa parcela da população negra, sem citar os negros evangélicos radicais, que caíram na armadilha da retórica equivocada de pastores preconceituosos e acreditam que as religiões de matriz africana são coisas do demônio.

Por fim, muito dos nossos têm certeza de que não existe racismo e afirmam que nunca, mas nunca mesmo, foram discriminados ou vítima de preconceito por serem negros. Que a luta antirracista é coisa daquelas pessoas que em tudo vê racismo e que deveriam deixar de mimimi e trabalhar como todo mundo faz e pronto.

Portanto, é por isso, que a Fundação Cultural Palmares, fundada no centenário da abolição da escravatura, cuja missão, enquanto instituição pública é a promoção e a preservação dos valores culturais, históricos e sociais da influência negra na formação da sociedade brasileira e empreender um conjunto de políticas públicas para valorização da história e das manifestações culturais e artísticas negras brasileiras como patrimônios nacionais, tem, hoje como presidente o senhor Sérgio Camargo.

Trata-se de um homem negro, negro de pele preta, mas se intitula como um “Negro de direita”, que o racismo brasileiro é “racismo nutella, racismo real existe nos Estados Unidos", que a escravidão foi terrível para os escravizados, mas muito boa para os descendentes, pois os negros brasileiros vivem melhor dos que os africanos, que o Dia da Consciência Negra é uma “vergonha” e que “precisa ser combatido” e as cotas raciais para negros “são mais do que um absurdo”.

Há dias atrás, em um áudio vazado, este senhor afirmou que o movimento negro é “uma escoria maldita”, que “Zumbi dos Palmares é um filho da p..!” e que não iria apoiar as agendas da Consciência Negra”, além de xingar uma sacerdotisa de religião de matriz africana de “macumbeira !” Uma pergunta emerge: O que uma pessoa negra e com esta visão tão caricata, para dizer o mínimo, da história, das lutas e das conquistas do povo negro brasileiro faz neste lugar? Ouso dizer que isto é um método de desmobilização e desconstrução do muito que os homens e mulheres negros vêm construindo na luta antirracista, desde a frente negra de 1930, o Teatro Experimental do Negro de Abdias do Nascimento entre 1940 e 1960, o Movimento Negro Unificado na década de 1970, a marcha dos Cem Mil em Brasília em 1999 e a criação das Secretarias da Promoção da Igualdade.

Trata-se de uma iniciativa muito bem orquestrada de um governo negacionista, que se orgulha de ter um negro que o acompanha em todo lugar, tal qual um chaveiro dependurado na cintura, como forma de “demonstrar que não é racista! ”

Ao fim e ao cabo, como diz meu amigo Elias Sampaio, acredito que Sérgio Camargo está presidindo a Fundação Cultural Palmares, renegando tudo o que este ente institucional foi criado para empreender, por que não nos vemos como um único corpo negro, por que a presença dele é um achincalhe, uma chacota, um escárnio de um governo RACISTA para com o povo negro deste país. Enquanto isso, estamos aqui, dando de ombros e seguindo a nossa vida, pois esse problema é para aquele povo do movimento negro. Aquela escoria maldita!


Paulo Sérgio Peixoto Da Silva é especialista em História Africana e Afro-brasileira.

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