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Inclusão (digital): Um desafio que não aceitará erros - Parte I


por Ronaldo Pedreira Silva

Professor EBTT do IFBA.


Corria tudo quase bem, 2020 seguia seu rumo e pensávamos que seria melhor que 2019. Aí, veio o corona e tudo virou de cabeça para baixo. Os escritórios fecharam, as escolas suspenderam as aulas, os comércios formal e o informal pararam. Empregos foram perdidos e quem pôde passou a trabalhar em casa, remotamente. As aulas passaram também a serem online, para as escolas que optaram por essa modalidade. E começaram problemas que ninguém pensou que iriam acontecer. A maioria das organizações não estavam preparadas para as atividades online, assim como as instituições de ensino, os professores, os alunos e as famílias.


Outra coisa para a qual esta pandemia do COVID-19 serviu foi para mostrar o quão desigual é o Brasil. Segundo o Blog Saneamento Básico (2019), os dados sobre o saneamento básico e serviços afins são preocupantes. Em 2015, os serviços de esgoto chegavam a 50,3% da população. Os de água a 83,3% da população. Ainda, há o problema da regionalização, com índices piores para a região Norte e muito melhores para a região Sudeste, que conta com 91,2% de abastecimento de água e 77,2% de coleta de esgoto. Há que se pensar também na coleta de lixo, sabendo-se que há grande deficit especialmente nas áreas rurais.


O adjetivo “básico” não é usado à toa. Não discutiremos a questão da saúde, porque alongaria demais o texto e fugiria de seu objetivo. Mas o saneamento básico é necessário para que as famílias tenham boas condições de vida. Doenças como cólera, dengue, leptospirose, e várias outras deixariam de existir ou seriam drasticamente minimizadas. As crianças e jovens teriam mais saúde e poderiam ter um melhor desempenho escolar, os sistemas públicos de saúde poderiam ser menos pressionados e certamente teríamos melhores indicadores sociais.


Mas por que falar de saneamento básico em um texto voltado para inclusão digital? Para mostrar que a problemática da inclusão, no Brasil em particular, é bem mais ampla. Ainda é preciso levar essa infraestrutura para uma grande parte da população, especialmente nas regiões Norte, onde 89% não tem acesso ao serviço e ao Nordeste, com 72% de desassistidos nesse item.


Há muitos investimentos a serem feitos em setores essenciais para o país. Não se pode exigir bom desempenho acadêmico de pessoas que não têm boa sanidade em suas residências, que sequer têm água de boa qualidade para beber e se higienizar, o que é fundamental nos tempos de pandemia. Isso sem falar em alimentação equilibrada, emprego e outros aspectos que podem interferir na escolaridade e outras coisas.


Outro aspecto da inclusão é que a pandemia veio mostrar que segundo a mídia, cerca de 15 milhões de pessoas eram invisíveis. Muitos não possuíam CPF, RG e às vezes, sequer Certidão de Nascimento. Isso significa que são pessoas que, por exemplo, nunca tomaram uma vacina, frequentaram uma escola. Simplesmente não existem.


Também foram explicitadas as desigualdades socioeconômicas de nossa sociedade, e no caso do texto, aquelas que afetam o acesso à Educação, especialmente quando se tornou necessário o emprego e o uso de recursos digitais. É aí que cresce em importância a inclusão digital para a maior parcela possível da população. Quem tem dificuldade de acesso teve problemas para fazer o cadastramento nos programas de auxílio emergencial dos governos. No cotidiano, não consegue se inscrever em concursos e dificilmente consegue acessar serviços públicos. O acesso ao meio digital atualmente é fundamental para o cotidiano, especialmente nos centros urbanos. A inclusão digital não é mais uma questão de facilitar a vida das pessoas, é colocar o país em um patamar novo de desenvolvimento e competitividade.


Mas como está a situação da inclusão digital no Brasil? Como ela afeta, por exemplo, a Educação?


A Educação é um fator de desenvolvimento da cidadania e formação profissional e em consequência, do desenvolvimento social, econômico, científico e tecnológico de um país, influenciando na capacidade de exercício de sua soberania e determinação de seus destinos. Acima de tudo, Educação é um direito do cidadão e um dever do Estado, garantidos pelo Art. 205, da Constituição Federal de 1988.

Segundo Pedroza (2019), a “inclusão digital precisa de três instrumentos básicos para acontecer: dispositivo para conexão, acesso à rede e o domínio dessas ferramentas”. Isso significa que ter bons equipamentos é bom, mas é necessário saber usá-los e saber o que fazer com eles para explorar os recursos da Internet e obter os resultados desejados nas atividades.


Ainda conforme a autora, há que se considerar também a acessibilidade em todos os graus de deficiência de cada indivíduo. E não é só uma questão de deficiência física, mas também “idosos e pessoas com baixo letramento (analfabetos, analfabetos funcionais e agora, analfabetos digitais)”.


Segundo Medeiros (2020, p. 43) a inclusão digital depende de três fatores:

1 - Infraestrutura de rede e equipamentos: Não é considerado o maior problema, porque já existem cobertura de rede e tecnologia com computadores, tablets, smartphones cada vez mais acessíveis. “Preencher lacunas nesse item não seria um grande problema.”


2 – Custos dos dados: Tido como o principal motivo para a exclusão digital no Brasil. O autor aconselha a “cobrança reversa” para solucionar o problema. O usuário não pagaria pelos dados que usa, mas as instituições, ou uma organização que as financie.

Desnecessário dizer que custa menos às pessoas ter um atendimento digital do que presencial e é mais barato manter um site do que uma agência física ou mesmo uma central de telefonia. Portanto, interessa a todos os níveis de governo avançar nisso. (MEDEIROS, 2020, P. 43)


3 – Qualificação para operações digitais: Considerado pelo autor como o fator de mais difícil solução. Essa dificuldade se dá pelas “barreiras geracionais e educacionais”, Medeiros (2020, p. 43).

Esses fatores devem ser considerados com grande seriedade. O primeiro, obviamente, irá requerer investimentos em infraestrutura, tendo em vista que o tráfego aumentará pelo acréscimo dos serviços a serem disponibilizados pelas empresas, instituições de ensino e órgãos governamentais. As operadoras de serviços de comunicação serão mais cobradas. As conexões precisarão melhorar e falhas serão cada vez mais prejudiciais e onerosas. Já é realidade a Indústria 4.0, a Educação 4.0, a Internet das Coisas (IoT – Internet of Things) e tudo isso vai demandar cada vez mais os serviços digitais, o conhecimento dos cidadãos, a necessidade de segurança e tudo que envolve o mundo digital.


Nos grandes centros, o incremento da infraestrutura é mais fácil, mas nas regiões mais remotas do país as dificuldades são bem maiores e não só pelas distâncias, mas também pelo retorno do investimento. Por isso, a ação dos governos deverá ser mais exigida e necessária. Quanto ao fator de custos de dados, não se vê muito sentido em o usuário ser onerado, uma vez que a publicidade é uma grande fonte de renda para os sites e os órgãos governamentais não costumam cobrar pelos acessos.


O mais complicado é o terceiro fator, que é uma queixa antiga das empresas, em particular as de tecnologia: A carência de pessoal qualificado para contratação. Mas há uma questão que aflige a muitas pessoas, a intimidade com as tecnologias e a intuitividade dos sites e aplicativos. Além disso, há a questão de que as instituições de ensino, em especial as públicas pela amplitude do público atendido, não estão preparadas para a digitalização e virtualização de suas atividades e a pandemia descortinou isso.


(continua...)

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