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Inclusão (digital): Um desafio que não aceitará erros - Parte II

Atualizado: Ago 8



por Ronaldo Pedreira Silva

Professor EBTT do IFBA

Não há que se incluir digitalmente apenas as pessoas, mas as instituições também, em particular as escolas. Nelas o público aprenderá como se comportar em um mundo cada vez mais virtualizado e digitalizado. Mesmo as profissões que sobreviverem exigirão de seus profissionais mais conhecimentos em computação. Por exemplo, lendo um artigo sobre o uso de Inteligência Artificial (IA) na área de Radiologia Clínica o autor disse que quem tiver conhecimento em computação poderá achar trabalho, Quem tiver conhecimento em IA terá grandes chances de conseguir trabalho. Mas o profissional em Radiologia que tiver capacidade de criar aplicações em IA terá um diferencial disputado. E isso traz um outro problema seríssimo, que é a completa despreocupação das escolas com o ensino de Lógica de Programação em todos os níveis de ensino, desde os mais iniciais, ao menos a partir do Fundamental.


Isso se reflete no terceiro fator, citado anteriormente, a falta de pessoal qualificado. Essa falta de qualificação, tem como uma das causas o descaso com o ensino de Lógica de Programação nas escolas, o que deveria ser feito desde muito cedo. Essa iniciativa seria importantíssima para criar cidadãos com espírito crítico, pensamento lógico, coerente e encadeado, capacidade de concentração, de análise e de solução de problemas, que são habilidades necessárias e valorizadas no mundo atual.


Mas para isso, muita coisa tem de mudar no Brasil. O acesso às tecnologias digitais é bastante desigual e exclusiva. Vejamos alguns dados.


Segundo o TIC Domicílio 2019, no Brasil, 75% da população urbana e 51% da população rural tem acesso à internet. Há que se considerar que zona rural não é aquela fazenda perdida, mas uma região na qual segundo Silva(2018), há uma densidade populacional menor que 150 hab/KM².


Na Fig. 1, a seguir, pode-se observar a desigualdade de distribuição dos domicílios com acesso à internet por região. Nele está explícita a carência da Região Nordeste. Essa desigualdade é um atraso ao desenvolvimento regional e puxa indicadores nacionais para baixo. Isso leva à necessidade de investimentos na região, para que os números melhorem.


Fig. 1 – Gráfico do percentual de acesso à Internet, por Região - 2019

Fonte: CGI.br/NIC.br, Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), Pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nos domicílios brasileiros - TIC Domicílios 2019. Acessado em 17/07/2020


Ainda, segundo o TIC Domicílio 2019, pode-se afirmar que 99% dos acessos à internet é por meio de computadores e celulares, sendo que desses, 58% é feito apenas pelo celular. E este é o dispositivo mais usado pelos jovens e por quem não tem como comprar um computador ou notebook.


Fig. 2: Usuários de Internet, por atividades realizadas na Internet - educação e trabalho

Fonte: CGI.br/NIC.br, Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias de Informação e Comunicação nos Domicílios Brasileiros – TIC Domicílios 2019. Publicado em 26/05/2020. Disponível em https://cetic.br/media/analises/tic_domicilios_2019_coletiva_imprensa.pdf. Acessado em 17/07/2020

Da Fig. 2 acima pode-se observar que a grande parte do acesso tem por finalidade a comunicação por meio de voz e vídeo. Não seria imprudente dizer que o WhatsApp e outros aplicativos do tipo têm grande responsabilidade por esse número.

Por outro lado, pelo TIC Domicílios 2019 (2020, p; 18), dos 40% que acessaram a Internet para fins de estudo por conta própria, 60% foram da Classe A e 27% foram das Classes D e E. Do total de quem acessou a Internet para atividades ou pesquisas escolares, 46% usaram conexão por banda larga e 35% usaram conexão móvel via modem o chip 3G/4G e 58% usaram computadores e celular e 29% apenas celular. Dos 33% que realizaram atividades de trabalho, 66% foram da Classe A e 18% das Classes D e E.


Segundo a TIC Domicílios (2019, p. 19), do total que fez atividades ou pesquisas escolares, 46% usaram conexão por banda larga ou fixa e 35% usaram conexão móvel via modem ou chip 3G/4G, 58% usaram computadores e celulares e 29% apenas celulares. Segundo Brandino (2020, p. 1), 70 milhões de brasileiros têm acesso precário ou não tem acesso à Internet.


A autora estuda a questão da inclusão digital e sua influência sobre a articulação partidária. Em uma época em que uma grande parte da comunicação é on-line, a falta de conexão de qualidade é uma forma de exclusão de futuros candidatos e candidatas nas suas articulações políticas. Uma boa conexão facilitaria a comunicação com as bases e diminuiria custos de campanha e daria maior competitividade aos candidatos oriundos das bases populares, dando-lhes inclusive, maior voz dentro dos partidos. Segundo Aline Torres, citada por Brandino (2020, p. 4), sendo o seu eleitorado da periferia e sendo a sua forma de comunicação o contato pessoal, os novos tempos dificultaram bastante, pois a maioria das pessoas não têm acesso às tecnologias e aplicativos de videoconferência. Assim, não só a mobilidade social é dificuldade, mas também a mobilidade política.


De acordo com Educa-IBGE (2018), o celular foi o dispositivo usado em 99,2% dos domicílios que têm condições de acessar a Internet. Já Pedroza (2019) aponta o Brasil como um dos países cujos cidadãos mais acessam a Internet. À época havia mais de 420 milhões de dispositivos ativos, entre computadores, smartphones, celulares, tablets, o que dá dois dispositivos por habitantes, mas como nem todos os possuem deve-se considerar que há quem tenha mais de um dispositivo. A desigualdade é patente.


Devemos considerar a inclusão digital como um fenômeno importante. Não é mais uma questão de garantia de empregabilidade dos cidadãos ou de acesso aos diversos serviços disponibilizados na Internet. É também uma questão de soberania nacional e até mesmo de sua segurança. Diversas potências, tais como a China, os EUA, a Rússia e já o Brasil, consideram, o ambiente virtual/digital como uma eventual área de guerra. No Brasil, a segurança digital está à cargo do Exército para que se tenha ideia da importância do problema.


Incluir digitalmente a população é uma forma de prover voz e vez aos cidadãos. Quem não tem acesso à internet tem maiores dificuldades para conseguir serviços públicos, conseguir emprego, se matricular em instituições de ensino em seus vários níveis e mesmo que o consiga, terá dificuldades maiores em se manterem nelas. Incluir digitalmente a população é abrir as portas para um mundo cada vez mais competitivo, excludente e exigente.


O trabalho doméstico para algumas empresas se mostrou eficiente, mais barato e pelo visto veio para ficar. Elas economizaram com auxílio transporte, energia elétrica, água, telefone e as despesas passaram com conexão e outras ficaram com os trabalhadores. Tudo isso deve ser revisto, com a continuidade do modelo.. O serviço público também sentiu as mudanças. Para o governo federal


“houve uma economia de R$ 270 milhões entre abril e junho com despesas com diárias e passagens, além de mais R$ 93 milhões, entre março e maio de 2020, com a redução de outras despesas – adicional de insalubridade, de irradiação ionizante, periculosidade, serviço extraordinário, adicional noturno e auxílio transporte. (Martello, 2020)


São números consideráveis.


O trabalho doméstico, as aulas online, as atividades digitais e tudo o que se relaciona com o uso das TICs vão tomando corpo e não têm mais volta.


O mundo digital não é mais uma área apenas para entretenimento, ou compras, ou pesquisas, ou de comunicação. É um cenário de múltiplas e complexas relações, de conflitos e de interesses econômicos e políticos cada vez mais sensíveis e críticos e o país que não educar sua população para nele viver e usá-lo como uma ferramenta de seu cotidiano será dominado por quem o fizer. Será um país vassalo.


Referências:

Blog Saneamento Básico. Como chegamos à situação atual da Saúde Pública e Saneamento Básico no Brasil. Disponível em https://www.eosconsultores.com.br/situacao-da-saude-publica-e-saneamento-basico/ Publicado em 13/02/2019. Acessado em 02/07/2020

BRANDINO, Géssica. Desigualdade digital vira obstáculo adicional para representatividade em eleição. Publicado em 17/07/2020. Disponível em https://www.geledes.org.br/desigualdade-digital-vira-obstaculo-adicional-para-representatividade-em-eleicao/?utm_source=pushnews&utm_medi%E2%80%A6. Acessado em 17/07/2020.

Educa-IBGE. Uso de Internet, televisão e Celular no Brasil. Disponível em

GOMES, Helton Simões. Internet chega a 80% das casas, e TV digital aberta cresce, diz IBGE. Publicado em 29/04/2020. Disponível em https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/04/29/internet-chega-a-80-das-casas-do-brasil-e-presenca-de-tv-cai-diz-ibge.htm. Publicado em 2018. Acessado em 29/06/2020

MARTELLO, Alexandro. Governo fixa regras para home office e diz que economizou R$ 360 milhões até junho com sistema. Disponível em https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/07/30/governo-fixa-regras-e-diz-que-poupou-mais-de-r-360-milhoes-ate-junho-com-home-office.ghtml. Publicado em 30/07/2020. Acessado em 30/07/2020.

MEDEIROS, Marcelo. Um plano para os mais pobres. Revista Época. Editora Globo. Edição 22/06/2020, p. 40-43.

PEDROZA, Paula. O que é Inclusão Digital e em que estágio estamos no Brasil. Publicado em 08/08/2019. Disponível em https://digitalks.com.br/artigos/o-que-e-inclusao-digital-e-em-que-estagio-estamos-no-brasil/. Acessado em 03/07/2020

SILVA, Nilson. População urbana e rural no Brasil - Análise comparativa dos percentuais segundo critérios do IBGE e da OCDE. Publicado em 16/12/2018. Disponível em https://anovademocracia.com.br/noticias/10028-populacao-urbana-e-rural-no-brasil-analise-comparativa-dos-percentuais-segundo-criterios-do-ibge-e-da-ocde#:~:text=Uma%20regi%C3%A3o%20predominantemente%20rural%20seria,hab%2Fkm%C2%B2%3B%20uma%20regi%C3%A3o%20predominantemente. Acessado em 21/07/2020.

TIC Domicílios 2019 – Principais Resultados. Disponível em https://cetic.br/media/analises/tic_domicilios_2019_coletiva_imprensa.pdf. Publicado em 26/05/2020. Acessado em 17/07/2020

CETIC – Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (sob os auspícios da UESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

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