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LUGAR DE FALA E REPRESENTATIVIDADE - por Jamile Santana





Considerando o meu lugar de fala enquanto mulher preta, na sociedade brasileira, achei pertinente escrever sobre essas duas categorias analíticas relevantes, e que por vezes se confundem nessa sociedade antirracista em formação (assim eu considero e almejo). O termo "lugar de fala", segundo a filósofa e pesquisadora Djamila Ribeiro, tem uma origem imprecisa, pois surge das reflexões de pensadoras que discutem sobre quem pode falar e se colocar numa sociedade que é patriarcal, misógina, heteronormativa, entre outras categorias normativas que consideram e legitimam o conhecimento a partir de uma perspectiva eurocêntrica, cujo o homem branco, rico, hétero, cristão, dita as regras, comportamentos tidos como padrão e que devem ser seguidos por todos, independente de suas especificidades pois há uma “norma” a ser considerada “universal”. Sendo assim, aqueles que não se enquadram nesta norma imposta, não poderiam se colocar e serem considerados em uma sociedade que não os tem como sujeitos e sim como este “outro”, que foge a “normalidade” e as regras sociais atribuídas às pessoas. É neste aspecto e com este objetivo, que o lugar de fala se apresenta, pois viabiliza e possibilita que tenhamos voz, opinião e lugar nessa construção histórica e social.


A essa altura, já percebemos como as categorias analíticas seriam de intensa correlação de forças e de poder no meio social, pois confere através da voz e da opinião o status de existência enquanto sujeito social, e é neste propósito que gostaria de tratar acerca da representatividade. Uma vez que essas categorias representam essa disputa de poder e de reivindicação de existência, e consequentemente de direitos que conferem o ser social. Ademais, a representação, que é uma reivindicação efervescente nos espaços de poder e de visibilidade conferem ao sujeito social que está em invisibilidade condições de ser e estar no mundo, de maneira mais respeitosa e cidadã, inclusive estando em harmonia com a educação e a proposta tida pelos Direitos humanos.


Entretanto, devemos ter cuidado nesta reivindicação representativa, pois esta, deve estar conectada a um senso crítico, político e de classe. Uma vez que temos inúmeros exemplos que nos mostram e escancaram que não basta ser mulher, negra(o), homoafetivo, para estar em consonância com as questões pertinentes a gênero, raça, sexualidade e direitos humanos, por consequência tendo um compromisso e uma responsabilidade cidadã com o outro semelhante. Até porque justamente enquanto seres sociais e múltiplos somos atravessados por diversas formas de opressão e julgamentos e é neste segmento que almejo provocar a reflexão. Uma vez que nesta disputa de narrativas e de poder, não basta ter uma pessoa que representa fisicamente e/ ou superficialmente os anseios das categorias invisibilizadas socialmente, como mulheres, negros (as), indígenas, homoafetivos, entre outros(as), é necessário que este/esta esteja articulado e comprometido com a causa política e social.


Seria como Djamila Ribeiro pontua, a existência e opinião a partir da sua localização social e desta maneira, todos temos poder de fala, de conhecimento e de influência na sociedade, sobre questões pertinentes a suas características e realidades e vivências mas também sobre outras questões. Sobretudo se essas questões são categorias de opressão como raça, gênero e classe. É neste entendimento que o lugar de fala se fortalece enquanto conceito, sem esvaziá-lo enquanto categoria, quando menciona não ter lugar de fala sobre alguma situação-tema, uma vez que como já mencionado, este lugar se situa socialmente. Para finalizar questiono, quem é você no mundo?







FONTES:


Meu arcabouço critico e analitico sobre o conceito e meu lugar de existência e fala.

RIBEIRO, D. O que é: lugar de fala?. Belo Horizonte (MG): Letramento, 2017.

https://www.youtube.com/watch?v=S7VQ03G2Lpw

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