• Mário Bastos

Os pretos (as) na pandemia: Como estamos e ficamos?

Nessa altura dos fatos e contextos pandêmicos, para alguns saltam aos olhos que DEFINITIVAMENTE não "estamos no mesmo barco", como quiseram que gritássemos, quando tudo começou pelos nossos arredores brasilienses. Entretanto para alguns, de certo, que percebemos esses costumes naqueles mesmos perfis que defendem uma certa postura meritocrática e que pensam que para ontem é necessário abrir o comércio e a economia. Além de que, acreditem, ainda pensam a Covid-19 e seus impactos biológicos e sobretudo sociais como algo que se coloca por alardes exagerados e exacerbados, por quem pensa viver constantemente uma teoria da conspiração. Enfim, posturas que vão para além do que essas linhas reflexivas e enxutas, conseguirão dar conta.


A análise hoje, estará focada no que alguns ainda tentam não perceber que é a disparidade que um vírus que teoricamente atacaria a todos sem distinção racial, econômica e/ ou cultural, mas que ao mesmo tempo se mostra mais letal justamente considerando esses mesmos fatores e que passam longe da condicionalidade fisiológica.


Neste sentido, enquanto alguns conseguem fazer suas unhas e expor os empregados ao contágio e a morte, sendo por homicídio doloso ainda que digam o contrário - porque será né? - conseguem defender calorosamente que passado essa “anormalidade”, continuarão fazendo seus pedidos mais fervorosamente por deliverys múltiplos; Mantendo sua renda inalterada, contando com os aplicativos de banco, internet e todo conforto do seu lar e da possibilidade aconchegante de isolar-se com os seus e assim, se permitir depois de mais de 4 décadas de vida aprender a cozinhar e a arrumar a própria cama que dorme ou ainda cuidar efetivamente dos filhos, ou seja, cria-los.


No segmento do trabalho, o ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Lélio Bentes Correia, que é também membro da Comissão de Peritos e aplicação de normas da Organização Internacional do Trabalho (TIT) afirma e reflete que “O comércio está se sustentando de alguma maneira graças a esses trabalhadores de delivery, mas não se vê um retorno adequado. Nem no sentido remuneratório, nem no sentido de proteção. Eles estão correndo riscos para que nós possamos manter a nossa tranquilidade nos nossos lares, protegidos da pandemia. Não só médicos e enfermeiros estão combatendo essa pandemia, há outros grupos. Os trabalhadores da limpeza também, correndo seríssimos riscos de infecção”.


Esses são verdadeiros heróis, que estão mantendo o nosso padrão de vida o mais próximo possível do normal. Precisam ser reconhecidos, precisam ser valorizados e, acima de tudo, precisam ser protegidos. E com isso, nem precisa dizer que é do outro lado, nesta mesma cidade e situação real, temos milhares e milhares que precisam se expor para conseguir menos do mínimo, que deveria ser o salário que traz esse mesmo adjetivo e que ainda assim não foi suficiente para ser respeitado de maneira digna.


Os mesmos que compõem a massa de informais e desempregados, ou ainda empregados sobre condições frágeis de proteção trabalhista, que antes mesmo da Covid-19, encontravam-se em situação complicada e desumana, aumentando consideravelmente seu número dia após dia. Inclusive, para estes que estão empregados, o receio de ficarem sem emprego e renda devido a todo o contexto de “crise” fazem que estes sejam os perfis que mesmo sem nunca ter pisado na Europa ou países estrangeiros, sejam os primeiros a perder seu bem maior, a vida.


Assim, como mostra uma pesquisa feita pelo Núcleo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro que diz que “Pretos e pardos sem escolaridade tem quatro vezes mais chance de morrer por Covid-19 no Brasil do que brancos com nível superior” (80,5% contra 19,65%). E se for considerar a mesma faixa de escolaridade, pretos e pardos apresentam proporção de óbitos 37% maior, em média, à dos brancos. A comparação feita pelos pesquisadores mostra que, entre os pacientes internados de cor branca, 62,07% se recuperaram, enquanto 37,93% morreram. Entre pretos e pardos, a situação se inverte: são 54,78% de mortes e 45,22% de recuperados. "Quanto maior o nível de escolaridade, menor a letalidade. Este efeito pode ser resultado de diferenças de renda, que geram disparidades no acesso aos serviços básicos sanitários e de saúde", aponta o estudo.


E além do estudo, fica perceptível como para nós pretas e pretos deste Brasil, ainda é complicado respirar e viver sob condições minimamente respeitáveis perante outros perfis sociais e econômicos. Nos querem “bem”, mas não bem o suficiente para condições dignas de vida e saúde, na essencialidade da palavra e no seu contexto que a muito tempo ultrapassou a concepção de ausência de doenças e sim de um estado de completo bem estar físico, mental e social, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Para essa organização inclusive, há uma padronização arquitetônica de casas e moradias que possibilite manter, segundo as suas recomendações, um isolamento social harmonioso e “auspicioso”.


Uma pena que a explicitação e suposição em época de pandemia e muito antes disso, para pretos, periféricos e que estão marginalizados em sua condição sócio histórica e econômica, este bem estar ampliado que a saúde preconiza, ainda é uma realidade bem distante do que dispõe legislações e recomendações de manutenção desta mesma realidade de saúde que nos é tão cara e distante. Enquanto isso lutamos literalmente e de inúmeras formas para respirar e nos mantermos vivos, de barriga cheia e de pés no chão e COM direitos. Não dá para escolher entre ter emprego ou direitos. A pandemia vai passar mas a nossa garra e resistência enquanto povo preto não passarão, assim, em tempo e em permanência seguimos e afirmamos que: “Simplesmente nos revoltamos porque por muitas razões não conseguimos respirar”- Franz Fanon


Jamille Santana

Fontes:

Negros sem escolaridade tem quatro vezes mais chances de morrer por covid19 no Brasil


Povo negro vai à rua pela vida e contra o neofascismo: vidas negras importam


Trabalhador sem direito carrega o país na pandemia, dizem ministros do TST


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