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Racismo e Colorismo

Por Jamile Santana




Fonte : Geledés


Recentemente as discussões raciais estão sendo apimentadas e reaquecidas por quem nunca deixou essa perspectiva “passar em branco”, com o perdão do trocadilho; tudo isso sobre vários contextos e horizontes. Uma das que sempre me inquietou, foram aquelas que levantam as discussões acerca do colorismo. É certo que a essa altura das vivências neste país e até no mundo, é sabido que, quanto mais retinto uma pessoa negra mais próximo ela está de ser atingida pelos marcadores múltiplos do racismo.

Quanto menos retinta ou com pouca melanina em sua epiderme, uma pessoa pode estar mais próximas dos ideais de embranquecimento aos quais fomos submetidos por anos e anos no Brasil. Neste sentido, temos que considerar a importância deste contexto e pautas nas questões de racialidade que nos toca diariamente. Entretanto, é preciso ser incisivo em considerar e refletir como o enfoque nessa abordagem pode nos dividir enquanto concepção de povo, visto que como fomos submetidos a um projeto de Estado que tinha como objetivo extinguir os negros e negras neste país, isso após sermos forçados a uma travessia pelo Atlântico para construir este país, mas poderíamos ter como destino qualquer outro lugar do mundo. Aqui estamos nós, afro brasileiros e afro brasileiras e me coloco neste lugar porque faço parte desta diáspora.

Após a conquista da abolição oficial e suas lutas e resistências que perduram até os dias atuais em que reflito e escrevo tais linhas, estamos ressignificando a conotação negativa ao que foi atribuída a população negra deste país. Assim, era incentivado pelo Estado que se criasse escolas eugenistas, que brancos pobres europeus viessem ao país com incentivo financeiro do país, inclusive financiando-os para compras de terras e todo tipo de benesse que pudesse ser ofertada para que nós povos pretos e ex-escravizados, pudéssemos morrer e desaparecer em pouco tempo.

Havia uma projeção, que em 2011, já não houvesse mais negros no país. Aqui estamos nós e pincelados pelo racismo que nos atravessa. O ideário de democracia racial que também fez parte das intencionalidades de cultura, para que o Brasil fosse conhecido como a terra propensa para a harmonia entre as raças que aqui viviam, sendo os negros, brancos e índios, ainda é perpetuado por alguns. Esse sentimento foi fortemente investido por diversos setores do país - o que consequentemente provoca o apaziguamento em qualquer fortaleza - para a intenção de nos reconhecermos enquanto povo negro e por consequência, ser muito propenso que pessoas negras de pele menos retinta sejam cooptados por este discurso, o que na verdade os empurra seja por meio da classe ou da estética, para contextos de afastamento à sua ancestralidade.

É válido pontuar que essa cooptação pode ser atingida naqueles que sejam mais ou menos retintos, até por que como afirma Silvio Almeida (2018), o racismo “é uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento, e que se manifesta por meio de práticas conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou privilégios, a depender ao grupo racial ao qual pertençam”. Por isso quando começamos, através de ações de fomento à reparação histórico social do povo negro, é que se percebe uma virada de concepção e até mesmo de auto afirmação destas populações através de pesquisas como as promovidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Assim, percebemos como a partir de 2012, com a criação da lei 12.711 (Lei de Cotas para o Ensino Superior), entre outras ações de incentivo ao conhecimento afro diaspórico, como a criação da lei 11.645 que torna obrigatório o ensino da história e da cultura afro brasileira em todas as escolas desde o ensino fundamental até o ensino médio, valorizando o nosso povo e fortalecendo o movimento negro no país.

Não poderia deixar de pontuar as comparações por vezes inevitáveis com outros contextos e países que também passaram por processo de escravização e nesta ocidentalização ao qual fomos submetidos, raro seria considerar uma localidade que não tivesse sofrido ou se beneficiado deste sistema econômico perverso. Pontuo toda essa trajetória social, histórica e reflexiva para acentuar que sem esse conhecimento, considerando as estratégias criadas para nos enfraquecer e dividir, fica perceptível como mesmo sendo filhos e filhas de pais e mães negros, muitos de nós tem na certidão de nascimento uma declaração enquanto pardos. Sendo esta opção colocada por vezes a contragosto de pais e mães, mas para que houvesse mesmo que inconscientemente o afastamento da negritude que carregamos conosco.

Por isso ainda há tempo, estamos em marcha e fortalecimento, em estratégias que ressurgem e que são adaptadas dia após dia em uma realidade e um cotidiano perverso que quer insistir em nos colocar no lugar da invisibilidade e da apatia. Não aceitamos e resistiremos para além da necropolítica, para muito mais além da pandemia. Porque preto é cor e negro é raça, sem consensos e apaziguamentos, estamos a construir em tempo essa concepção de povo, que não nos segrega, apenas nos rega.

Renascemos!

Fontes:


Previsões são sempre traiçoeiras: João Baptista de Lacerda e seu Brasil branco - https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702011000100013

A inferiorização dos negros a partir do racismo estrutural - https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2179-89662018000402581

Todo meritocrata deveria ver - https://www.youtube.com/watch?v=h7pXp9mAnd8

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