• Mário Bastos

Um vírus contra o Capitalismo


Trabalhadores se espremem em transporte coletivo durante a pandemia (Foto: Yan Marcelo/@yanzitx)



Uma das questões candentes da atualidade é de que forma o Covid-19 irá afetar os modos de sociabilidade, bem como as relações da sociedade civil com o estado, uma vez que superada a pandemia. Em síntese, trata-se de uma questão que questiona em que medida o vírus do Covid-19 pode afetar o caráter expropriatório do modo de produção capitalista. Curiosamente, é sintomático como a maior parte das reflexões parece ignorar sumariamente o problema central do Capitalismo.


Em diversas obras de ficção-científica contemporânea um tema que aparece com cada vez mais destaque pode ser, em linhas gerais, definido como uma exploração romântica de viés moralizante da dialética homem-natureza ¹. Nelas o ser humano, uma vez que colocado como um entre predatório, virulento mesmo, que consome indiscriminadamente a “mãe” natureza, é colocado como o “vilão da história” submetido à justiça transcendental da natureza.


Ora, é evidente que apenas um idiota neo-liberalóide com a forte tendência à canalhice do quilate de nosso "Anti"-Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, seria capaz de ignorar o quadro geral destrutivo a que a dialética homem-natureza foi alçada no mundo contemporâneo. Assim, o problema desse recorte ficcional mencionado não está na evidente constatação do caráter predatório da sociedade humana contemporânea - ou, sendo mais específico, da sociedade de consumo capitalista - em sua relação com o meio ambiente na exploração das forças produtivas; o problema está no famigerado “wishful thinking”, ou, em bom português no "pensamento desejoso", que se resume à uma distorção na percepção, apreensão e interpretação de elementos objetivos para atender a critérios moralizantes que correspondem a determinada compreensão subjetiva - ainda que ampliada - da realidade ².


Esse traço, que em uma medida ou outra, acompanha a sociedade moderna - e tem no romantismo uma distinta expressividade que se dá tanto no campo estético quanto social - talvez tenha sido um das características que mais tenha ocupado a crítica de Marx e Engels a determinada forma de fazer filosofia que até então caracterizava a modernidade, e particularmentea tradição liberal ³. Para além de qualquer outra questão de diferença de método, o que Marx e Engels se ocupam de apontar, ao longo de diversas de suas obras, é como esse caráter do discurso liberal, em geral, corresponde e reforça o processo de alienação que, a um só tempo, é produto e ferramenta de manutenção do caráter expropriatório do Capitalismo.


Nos dias estranhos em que vivemos, nos quais a sociedade capitalista contemporânea é devassada em suas bases pelo vírus da Covid-19, debates acerca do "novo normal" e do "dia demais de amanhã" têm ocupado a pauta. No geral, pululam análises que apostam em mudanças significativas do Capitalismo mundial que variam desde as mais sutis - e nesse sentido um tanto quanto redundantes - até as mais radicais. Entretanto, a maior parte dessas ditas análises parecem sistematicamente sucumbir ao vírus do pensamento desejoso, lhe conferindo um caráter eminentemente romântico, não muito diferentes das obras de ficção mencionadas no início desse texto. É sintomático, a propósito, como a maior parte das projeções do pretenso mundo Pós-Covid-19 simplesmente ignoram a crítica ao modo de produção capitalista como um elemento central, preferindo recorrer a fraseologias genéricas, idealistas, difusas, enfim, românticas mesmo, como "desigualdade", "solidariedade", "humanismo" ou "esperança". Ou seja, uma crítica que se estabeleça a partir da perspectiva do materialismo histórico parece ser tão necessária como não se via pelo menos desde queda do muro de Berlim.


A bem de recorrer a uma linguagem mais contemporânea, é pertinente aqui referenciar dois vídeos. O primeiro deles acompanha justamente a linha do pensamento desejoso, no qual se prenuncia uma "grande realização", produzido pelo perfil Probably Tomfoolery . O segundo vídeo, menos otimista, é muito mais esclarecedor. Também sintomaticamente, retrata uma realidade que passa ao largo das atenções da sociedade de consumo em geral. Trata-se de um vídeo no qual a realidade dos motoboys de São Paulo, que trabalham para os serviços de aplicativo de entrega, é mostrada a partir das palavras dos próprios trabalhadores . O que ali se percebe é a imensa capacidade de adaptação e resiliência do modo de produção capitalista, que não passa sem a conhecida expropriação da força de trabalho. Afinal, como reza o velho dogma capitalista, toda crise traz consigo oportunidades de negócio. A questão é que sistematicamente se costuma esquecer de que oportunidades de negócio para uns poucos, invariavelmente equivalem a exploração para tantos outros.


O desenvolvimento tecnológico das forças produtivas no século XXI, no bojo da já famigerada “Revolução Industrial 4.0”, criou novas formas de expropriação da força de trabalho sem qualquer precedente, que correspondem a uma ampliação significativa da precarização das relações de trabalho e que contribuem para um processo de alienação e estranhamento da classe trabalhadora de si mesma, reforçando a desagregação e desarticulando as possibilidades mais orgânicas de organização da classe trabalhadora . O “home office” é apenas a face mais burguesa dessa mudança. O lado obscuro fica por conta da exploração dos serviços de aplicativo de entrega que se valem de um cenário de profunda desigualdade social e econômica, potencializado pelo Covid-19, para explorar cruelmente uma massa de trabalhadores que, atualmente, tem apenas como alternativa literalmente apenas a morte.


Isso nos faz retornar à questão inicial de como um vírus pode afetar o Capitalismo. Qualquer resposta, como já deve ter ficado evidente, não pode ignorar os elementos materiais e objetivos que, em larga medida, determinam a sociabilidade da sociedade civil contemporânea, bem como a relação da mesma com o Estado. É certo que qualquer avaliação é prematura. Porém, se observarmos a quadra político-econômica de nossa perspectiva nacional, não há também qualquer sinalização de que o projeto neoliberal, tocado como uma nave em velocidade de dobra, tripulada pelo capital financeiro, elite brasileira, e poderes executivo, legislativo e judiciário, mesmo com uma eventual - e ainda desejosa - queda do governo Bolsonaro, dá sinais e arrefecer.


Otimismo, sem dúvida é importante, porém apenas até a medida em que o mesmo não se resuma a um elemento de alienação. E se há uma vacina contra o processo de alienação do modo de produção capitalista - que se desenvolve a partir de bases materiais mas afeta, também sobremaneira a subjetividade do indivíduo -, como extensamente sugeriu Marx, a mesma começa através de uma práxis que tem, entre outros desafios, o de lançar luzes sobre as formas obscuras de opressão do Capital.

Em outras palavras, enquanto as discussões não colocarem no centro do debate os problemas intrínsecos do modo de produção capitalista como forma que subverte o uso racional das forças produtivas e reduz a dialética homem-natureza a uma relação de acúmulo de valor em detrimento da dignidade humana e da preservação do meio ambiente, dificilmente nos daremos conta da verdadeira dimensão do problema, qual seja: o Capitalismo é, ele mesmo, uma forma análoga a um vírus, que acompanha nossa sociedade desde os primórdios da modernidade, e que tem na capacidade de adaptação sua principal habilidade.


Mário Bastos

Mestre e Doutorando em Filosofia pela UFBA.

Professor de Direito Constitucional e Filosofia do Direito.

Diretor Acadêmico do Instituto HORI.

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